Setores

Para quem o regime híbrido compensa: quatro perfis, com a conta de cada um

Agência, distribuidora, consultoria e varejo. Os mesmos R$ 240 mil de faturamento produzem quatro decisões diferentes — e a variável que separa não é o setor, é o que está dentro dele.

Redação Simples Híbrido

Cada afirmação conferida contra a norma citada

· 10 min de leitura

Em resumo

  • O que decide não é o setor, e sim três variáveis: quanto se vende para quem credita, quanto se compra com nota e qual é a alíquota efetiva do DAS.
  • Perfis com faturamento quase todo B2B e compras relevantes com nota são os que mais tendem a ganhar.
  • Prestador de serviço para consumidor final praticamente nunca ganha — não há quem aproveite o crédito gerado.
  • Serviço com muita mão de obra e pouca compra com nota é o caso mais desfavorável de todos: paga mais e não credita.
  • Estar em setor "certo" com mix de clientes errado não salva a conta. O mix pesa mais que o CNAE.

Toda semana aparece uma lista de "setores que devem migrar para o Simples Híbrido". Elas erram pelo mesmo motivo: o setor não decide nada. Duas agências de publicidade do mesmo tamanho, na mesma cidade, podem ter respostas opostas.

O que decide são três números, e nenhum deles está no CNAE. Este texto mostra os quatro perfis mais comuns com a conta fechada de cada um — mesmo faturamento, resultados diferentes.

As três variáveis que importam

  • Percentual de vendas para clientes que EFETIVAMENTE aproveitam crédito — ou seja, empresas do regime regular. Cliente no Simples tradicional não credita, e consumidor final também não.
  • Volume de compras com nota de fornecedores do regime regular. É esse crédito que segura o custo do híbrido.
  • Alíquota efetiva do DAS da empresa, que sai do extrato do PGDAS e já considera RBT12, fator R e sublimites.

Todos os exemplos abaixo usam o mesmo faturamento — R$ 240.000,00 nos últimos doze meses — e a mesma alíquota de IBS + CBS: 9,53%, o teto da faixa estimada para 2027. Só as outras variáveis mudam.

Perfil 1 — Agência de publicidade

Faturamento quase todo para empresas, e uma particularidade que muda a conta: parte relevante do custo é repasse de mídia, comprado com nota de veículos e plataformas que estão no regime regular.

Exemplo com números

Agência: 90% B2B, R$ 120.000,00 de compras com nota

  • DAS de R$ 1.500,00 por mês, com R$ 200,00 de PIS e COFINS
  • 90% do faturamento para clientes do regime regular
  • R$ 120.000,00 de compras com nota no ano
Custo tributário hojeDAS anualizado
R$ 18.000,00
Custo no híbrido15.600,00 + (22.872,00 − 11.436,00)
R$ 27.036,00
Custo adicional27.036,00 − 18.000,00
R$ 9.036,00
Crédito extra ao cliente240.000 × 90% × 9,53% − atual
R$ 18.424,80
Ponto de equilíbrio9.036,00 ÷ 18.424,80
49,0%

Basta capturar metade do benefício gerado para a conta fechar. Em termos de preço, isso equivale a um reajuste em torno de 3,8% — que o cliente absorve com folga, porque o crédito que ele passa a tomar é maior que o aumento. É o perfil mais favorável dos quatro.

Perfil 2 — Indústria pequena ou distribuidora

Aqui a característica dominante é comprar muito: matéria-prima ou mercadoria para revenda, quase sempre com nota de fornecedor do regime regular. A margem de valor adicionado é baixa, e isso é uma vantagem no regime não cumulativo.

Exemplo com números

Distribuidora: 70% B2B, R$ 168.000,00 de compras com nota

  • DAS de R$ 1.500,00 por mês, com R$ 200,00 de PIS e COFINS
  • 70% do faturamento para clientes do regime regular
  • R$ 168.000,00 de compras com nota no ano — 70% do faturamento
IBS e CBS devidos240.000,00 × 9,53%
R$ 22.872,00
Crédito das compras168.000,00 × 9,53%
R$ 16.010,40
Custo no híbrido15.600,00 + (22.872,00 − 16.010,40)
R$ 22.461,60
Custo adicional22.461,60 − 18.000,00
R$ 4.461,60
Crédito extra ao cliente240.000 × 70% × 9,53% − atual
R$ 14.330,40
Ponto de equilíbrio4.461,60 ÷ 14.330,40
31,1%

O melhor resultado dos quatro perfis, e por um motivo estrutural: o crédito das compras derruba o custo adicional pela metade. Quanto maior a proporção de insumo comprado com nota, mais o regime não cumulativo trabalha a favor. Basta capturar um terço do benefício.

Perfil 3 — Serviço com muita mão de obra

Consultoria, contabilidade, engenharia, agência de tecnologia. O custo principal é folha de pagamento, que não gera crédito de IBS e CBS. As compras com nota são pequenas: software, aluguel, alguns serviços.

Exemplo com números

Consultoria: 80% B2B, apenas R$ 24.000,00 de compras com nota

  • DAS de R$ 1.500,00 por mês, com R$ 200,00 de PIS e COFINS
  • 80% do faturamento para clientes do regime regular
  • R$ 24.000,00 de compras com nota no ano — 10% do faturamento
IBS e CBS devidos240.000,00 × 9,53%
R$ 22.872,00
Crédito das compras24.000,00 × 9,53%
R$ 2.287,20
Custo no híbrido15.600,00 + (22.872,00 − 2.287,20)
R$ 36.184,80
Custo adicional36.184,80 − 18.000,00
R$ 18.184,80
Crédito extra ao cliente240.000 × 80% × 9,53% − atual
R$ 16.377,60
Ponto de equilíbrio18.184,80 ÷ 16.377,60
111,0%

Acima de 100%: nem repassar o benefício inteiro cobre o custo adicional. E note que o mix de clientes é ÓTIMO — 80% B2B. O que derruba a conta é a ausência de crédito nas compras. Por essa via, não fecha; o híbrido só se justificaria por volume, ganhando clientes que hoje evitam fornecedor do Simples.

Perfil 4 — Serviço ou varejo para consumidor final

Restaurante, e-commerce de varejo, clínica, salão, prestador para pessoa física. Aqui a conta não precisa nem ser feita até o fim, mas vale fazer para ver o tamanho do problema.

Exemplo com números

Varejo: 10% B2B, R$ 96.000,00 de compras com nota

  • DAS de R$ 1.500,00 por mês, com R$ 200,00 de PIS e COFINS
  • Apenas 10% do faturamento para clientes do regime regular
  • R$ 96.000,00 de compras com nota no ano
Crédito das compras96.000,00 × 9,53%
R$ 9.148,80
Custo no híbrido15.600,00 + (22.872,00 − 9.148,80)
R$ 29.323,20
Custo adicional29.323,20 − 18.000,00
R$ 11.323,20
Crédito extra ao cliente240.000 × 10% × 9,53% − atual
R$ 2.047,20
Ponto de equilíbrio11.323,20 ÷ 2.047,20
553,1%

Cinco vezes o benefício gerado. Não é uma meta difícil: é uma impossibilidade. Quem vende para consumidor final não tem a quem entregar o crédito cheio, e o que sobra do híbrido é só o custo — mais imposto e mais obrigação acessória.

Os quatro lado a lado

Mesmo faturamento, mesma alíquota, quatro decisões
PerfilB2BCompras com notaCusto a maisRepasse necessário
Distribuidora70%R$ 168.000R$ 4.461,6031,1%
Agência90%R$ 120.000R$ 9.036,0049,0%
Consultoria80%R$ 24.000R$ 18.184,80111,0%
Varejo10%R$ 96.000R$ 11.323,20553,1%

Todos com faturamento de R$ 240.000,00, DAS de R$ 1.500,00/mês e alíquota de IBS + CBS de 9,53%. O crédito das compras é teto otimista: supõe que todo fornecedor destaca IBS e CBS.

Repare na ordem. A distribuidora, com MENOS venda B2B que a agência e que a consultoria, tem o melhor resultado. A consultoria, com bom mix de clientes, tem o segundo pior. O que reorganiza o ranking é a coluna de compras.

Como usar isto no seu caso

  1. Abra o extrato do PGDAS de um mês típico e anote o DAS e a soma de COFINS + PIS.
  2. Levante o faturamento dos últimos doze meses.
  3. Estime que fatia das suas vendas vai para empresas do regime regular — e desconte as que estão no Simples tradicional, porque essas não creditam.
  4. Some as compras do ano com nota de fornecedor do regime regular. Compra de MEI, de optante do Simples e de pessoa física não entra.
  5. Rode a conta e compare o repasse necessário com o que você acredita conseguir praticar de aumento.

E lembre do que nenhuma dessas contas inclui: o custo de conformidade. Apuração mensal de IBS e CBS, escrituração própria e validação documento a documento costumam elevar o honorário contábil. Nos perfis com margem apertada, essa despesa sozinha decide.

Perguntas frequentes

Existe uma lista de setores que devem migrar para o regime híbrido?

Não de forma confiável. O que decide são três variáveis internas à empresa — percentual de vendas para quem aproveita crédito, volume de compras com nota e alíquota efetiva do DAS. Duas empresas do mesmo setor podem ter respostas opostas.

Por que a distribuidora sai melhor que a consultoria, mesmo vendendo menos para empresas?

Porque compra muito com nota. No regime não cumulativo, o crédito das compras reduz o imposto devido. A consultoria tem custo concentrado em folha de pagamento, que não gera crédito de IBS e CBS.

Vendo para empresas, mas elas estão no Simples. Conta como B2B?

Não. Comprador optante do Simples Nacional tradicional não aproveita crédito de IBS e CBS. Para efeito desta conta, só conta quem está no regime regular — Lucro Real, Lucro Presumido — ou no próprio híbrido.

Compra de MEI gera crédito?

Não. Compra de MEI, de optante do Simples tradicional ou de pessoa física gera crédito zero. Por isso o cálculo de crédito sobre compras é um teto otimista: ele supõe que todo fornecedor destaca IBS e CBS.

De onde saiu isto

Informação:

Isto é conteúdo de apoio, não consultoria

O texto explica o que a norma citada diz. Ele não avalia o seu caso, não substitui o seu contador e não considera particularidade de atividade, anexo ou sublimite. Para a conta com os seus números, use a calculadora.

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